terça-feira, 2 de dezembro de 2008

[Escola Alemã de Curitiba]

A Escola Alemã de Curitiba (1930-1942)

Na Curitiba de 1930, filhos de alemães eram matriculados em escolas fundadas por pessoas pertencentes à comunidade alemã. A Escola Alemã era voltada aos evangélico-luteranos, e muitos dos pais dessas crianças já haviam estudado lá, e muitas vezes até seus avôs.

Estes imigrantes congregaram-se em torno de uma comunidade evangélica, em 1866, e três anos mais tarde fundaram a Deutsche Schule, com o objetivo de manter os costumes e preservar seu idioma.

Logo no início ocorreu uma cisão da comunidade, e a escola funcionou irregularmente. Porém, a partir de 1872, o número de matrículas aumenta muito, e a casa do pastor (local das aulas), já não acomodava mais. O ensino então foi transferido para as dependências da igreja, até que conseguisse dinheiro para construir a sede, o que só ocorreu em 1892. A partir daí, a Escola Alemã já não dependia administrativamente da igreja, apesar de os pastores serem professores e diretores e continuar dependendo financeiramente da comunidade evangélica.

Cria-se então a Sociedade Escolar (Verein Deutsche Schule). Esta sociedade passou a ser a mantenedora da Escola e reformularam o estatuto, deixando opcional a disciplina de Religião.

Segundo documentos da época, em 1914, a Escola Alemã mudou seu nome para Colégio Progresso, porém era muito conhecida como Deutsche Schule. A escola foi depredada devido à onda de nacionalismo lançada pela imprensa. Terminada a guerra, a comunidade germânica investiu para reparar os danos causados ao prédio, ao mobiliário e ao material escolar.

Depois de muito insistir para uma reabertura do colégio, em 1919, a solicitação foi aceita, com a Sociedade afirmando que se tratava de uma instituição brasileira criada por alemães, porém o número de matriculas diminuiu significativamente. A escola era considerava estrangeira por parte do governo, pelo fato de grande parte dos diretores serem estrangeiros.

Ainda em 1929, a Escola Alemã/Colégio Progresso comemorava seus 60 anos, e criou o curso ginasial, totalmente ministrado em português.

O Decreto Federal de 4 de maio de 1938, impedia que as aulas fossem ministradas em qualquer idioma que não o nacional, fazendo com que a Escola Alemã/Colégio Progresso sofra mudanças radicais. Dá pra observar a adaptação da Escola a respeito desse decreto quanto a alguns certificados de conclusão do curso matutino da época, que nos permite fazer uma comparação aos anos 1933, 1935, 1938, onde em 1933 o certificado era todo em alemão, em 1935 era bilíngüe, em português e alemão, e em 1938 era totalmente em português.

Quando a escola foi posta em uma situação de definir-se como brasileira ou como alemã, ela optou por continuar o ensino diferenciado, quando uma das exigências era que o ensino primário fosse todo ministrado em português. Para evitar maiores problemas, a Escola Alemã/Colégio Progresso seguiu a orientação dada pela Embaixada Alemã de conformar-se com as novas leis brasileiras.

Mas como poderia a Escola continuar com o ensino diferencia, em alemão, quando não era compatível com a lei? Cria-se uma lei federal de dezembro de 1938, que reforçava o Decreto de maio de 1938, referente ao ensino obrigatório em português, sendo impossível continuar o curso matutino do jeito que era oferecido.

Existe a hipótese de que em 1938 ele tenha sido extinto, fazendo com que a Escola Alemã/Colégio Progresso perdesse caráter de ‘escola estrangeira’.

A comunidade alemã investiu o quanto pode para que a escola continuasse a ofertar o ensino em alemão, preservando as tradições, costumes e idiomas, segundo eles ‘vale apena lutar por nossos colégios’.

Em Curitiba, a Escola Alemã/Colégio Progresso preservava o idioma, o nome, a disciplina e o espírito alemão, entrando nos prontuários do Departamento de Organização e Política Social (DOPS).

  • Estrutura


O edifício onde ficava a Escola Alemã/Colégio Progresso foi construído em 1892, uma construção simples, compacta, localizada ao lado da Praça Dezenove de Dezembro, em um terreno quadrado e com muros de alvenaria.

Foi planejado, projetado e construído por alemães. De arquitetura tudesca, tinha um objetivo: reforçar uma tradição secular que se preocupa com a formação dos jovens com os benefícios que a instituição pode dar.

As quatro faces do prédio tinham cada uma um significado, sendo o Saber, o Prestígio, a Tradição e a Cultura que esperava que fosse transmitida.

A localização da Escola Alemã/Colégio Progresso é intencional, pois é de nossa cultura ocidental, colocar junto às praças, Igrejas, Seminários, Conventos ou algo do governo representando um dos poderes (executivo, legislativo e judiciário). Levando em conta que a Escola foi construída junto a uma praça (dezenove de dezembro), sua localização era privilegiada.

O edifício, na década de 1930, contava com dois pavimentos e um sótão bem grande, que se observado às pressas, daria a falsa impressão de um terceiro andar.

  • Ensino

Na Escola Alemã/Colégio Progresso era ofertado um curso de 8 anos pela manhã, ministrado em língua alemã, e durante a tarde o espaço física era ocupado pelo ginásio, ministrado em língua portuguesa. E o curso do ginásio foi sendo implantado aos poucos a partir de 1929, mas seu funcionamento só foi autorizado em 1933.

No curso primário o alemão era a língua de comunicação diária e a de ensino também, e o idioma de português estava incluso como uma disciplina. Já no ginásio, falava-se e ensinava-se português, e o alemão não constava no currículo. Observando isso podemos concluir que de coisas em comum havia somente o espaço físico, gerando a imagem de “duas escolas”.

Os alunos deveriam comparecer a aula todos os dias, e pontualmente, caso contrário, os pais deveriam mandar um manuscrito explicando detalhadamente o motivo da falta, e declarando a doença que o fez faltar. Isso era exigência da escola, pois segundo ela, era um dever de todos, tanto pais como professores, cuidar da educação das crianças.

Por tal motivo de zelo pela educação, ao inicio do ano os pais eram convocados a irem até a escola. Isso servia para lembrá-los que a partir de fevereiro iniciava-se o ano letivo e os alunos deveriam retornar à escola.

A Escola Alemã/Colégio Progresso ofertava disciplinas como: Alemão, Álgebra, Aritmética, Português, Inglês, Francês, História Natural, Geografia, Geografia do Brasil, Física, Química, História Universal e do Brasil, Geometria, Caligrafia, Desenho, Ortografia, Canto, Trabalhos de agulha e Ginástica. A disciplina de Português de Alemão eram avaliadas quanto à ortografia, literatura e gramática. Já quanto à aprendizagem de francês e inglês, cobrava-se só a gramática e conversação.

O programa era tanto para garotas quanto para garotos, exceto trabalhos de agulha (para as meninas) e ginástica (para os meninos).

A Escola ainda realizava aulas de campo, levando seus alunos a fabricas e chácaras fazendo com que eles observassem os fenômenos da natureza e suas modificações.

No ano de 1942, houve o rompimento das relações diplomáticas entre Brasil e Alemanha, e no dia seguinte já via os resultados disso, as primeiras prisões contra alemães foram feitas.

Com isso, durante os anos de 1942 e 1943 a Escola Alemã/Colégio Progresso perde por completo suas características.

A escola estava em declínio, e documentos da época mostram a solução: A Faculdade de Medicina do Paraná havia estudado a possibilidade de tomar para si a Escola e dar continuidade ao curso secundário.

No final de dezembro de 1942, a Sociedade Colégio Progresso decidiu que o patrimônio seria passado à Faculdade de Medicina do Paraná, a qual garantiu a continuidade dos professores e funcionários do colégio.

Dava-se então o processo de transferência dos bens para a Faculdade de Medicina. Dentre os bens cedidos estava uma área adquirida em 3 da janeiro de 1927, onde mais tarde foi construído o Hospital de Clínicas.

O edifício sede da Barão do Serro Azul continuou abrigando apenas o Colégio Progresso, ou seja, o ensino em português, mas em 1944, estava em construção um novo prédio, para onde seria transferido, na rua Coronel Dulcídio.

As obras de alargamento da Barão do Serro Azul, fez com que opta-se pela demolição do prédio, como parte de um projeto comemorativo ao Centenário da Emancipação Política do Paraná, em 1953, inaugurando a nova Praça Dezenove de Dezembro.

  • Gêneros


A Escola Alemã era considerada mista, por aceitar tanto meninos, quanto meninas, porém seu espaço era dividido por gênero. As carteiras da escola eram de duplas e não era permitido que se sentassem meninos e meninas juntos. Não havia brincadeiras conjuntas na hora do intervalo, pois as garotas iam para um lado do prédio onde havia banquinhos de madeira onde elas sentavam-se e comiam as merendas trazidas de casa, e brincavam de roda, como “lenço-atrás”, “passa anel”, pular corda e “amarelinha”, ou apenas ficavam conversando. Já os meninos ficavam do outro lado, brincando “de mãe”, “polícia e ladrão”, “pular sela” ou faziam ginástica nas barras.

A divisão de gêneros era bem visível, seja nas filas, nos sanitários (lados opostos do prédio) ou em algumas aulas como: ginástica para meninos e trabalhos de agulha para meninas. E esses trabalhos feitos pelas garotas (geralmente bordados de ponto cruz, que eram várias amostras de alfabetos e numerais, servindo de modelo para o enxoval da futura dona de casa), ficavam expostos em uma vitrine de vidro com um papel indicando o nome e a turma da autora.

Na escola era permitida a presença de garotos e garotas na mesma sala até a penúltima série. Já na ultima série do curso matutino os alunos eram separados.


Fonte: http://dspace.c3sl.ufpr.br:8080/dspace/bitstream/1884/8017/2/2002_corpo%20disserta%C3%A7%C3%A3o.pdf

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