terça-feira, 2 de dezembro de 2008

[Escola Alemã de Curitiba]

Entrevista
Realizada dia 7 de abril de 1998,2 com Izolde.

RS – A religião de vocês...
I – Era protestante, luterana, e depois quando eu casei, eu virei pro católico.
RS – Descendente de alemães?
I – Não, meu pai era descendente de suíços, e minha mãe era de alemães.
RS – A Sra. nasceu em Curitiba?
I – É. {...}
RS – Como a Sra. ia para o colégio?
I – A pé.
RS – Quantos irmãos a Sra. teve?
I – Dois.
RS – Eles também estudaram no colégio?
I – Também.
RS – Em casa, usavam o alemão?
I – O alemão. Só até mocinha, depois meu marido não falava alemão.
RS – A Sra. ensinou a língua alemã para seus filhos?
I – Não. É que meu marido não falava o alemão e eu achava ruim eu falando alemão e ele
não entender. Com minha mãe, sozinha, eu falava. {...}
RS – Quais foram os colégios que a Sra. estudou?
I – Eu só estudei nesse. Primeiro era Escola Alemã. Depois quando passou pra ginásio daí
ficou Colégio Progresso, depois da guerra né, durante a guerra.
RS – Em que período a Sra. estudou?
I – Eu entrei com ... 7 anos,... deixa eu ver... é, 7 anos, fiz 8 anos de primário, depois passei
pro ginásio, mais 4 anos.
RS – Tinha exame de Admissão?
I – Não, passava direto. Eu fiz 8 anos primário, né, e o ginásio, eram 4 na época, mas esses
4 anos não contava, comecei desde o comecinho, primeiro ano do ginásio.
RS – Então vamos recapitular. A Sra. fez Jardim de Infância?
I – Eu fazia na igreja, na Trajano Reis, que agora é o Colégio Martinus.
RS – Certo. Aí a Sra. saiu de lá e foi pra Escola Alemã.
I - Sim.
RS - Aí a Sra. fez quantos anos? se chamava primário?
I – 8... Não sei. Porque era tudo em alemão, né...
RS – E a Sra. fez 8 anos então, e depois?
I – Depois passei pro ginásio e fiz mais 4 anos.
RS – E esse ginásio era à tarde?
I – Era à tarde, é, era à tarde. Mas depois que acabou, vamos dizer, acabou bem dizer a
Escola Alemã, daí já era o ginásio Progresso né mas...
RS – Mas ela acabou quando?
I - Acho que foi depois da guerra... ou pelo menos durante...
RS – E a Sra. lembra, depois da guerra, daquele prédio... ele havia sido fechado... ou não?
I – Não, acho que não. Porque já era Colégio Progresso, já era... Porque no primário a gente
só estudava em alemão, só tínhamos uma aula em português, que era o Português mesmo, mas depois que passou pra Colégio Progresso, aí nós tínhamos tudo em português. Daí
ficou Colégio Progresso...
RS – Tá, o que eu quero que a Sra. me ajude é: se fechada essa Escola Alemã, que
funcionava no período da manhã, esse ginásio, que chamam «ginásio do professor
Moreira», ou então «ginásio do colégio Progresso», ele continuou existindo, só ele, sem a
Escola Alemã, ali, naquele local?
I – Só ele, ali naquele local. {...} Porque eu quando eu saí da escola, ele ainda estava ali na
pç. 19 de Dezembro. Daí depois quando ele mudou... bem daí eu já tinha saído...
RS – A Sra. lembra qual o período em que estudou lá?
I – É só fazer as contas... entrei com 7 anos, nasci em 24, ... 24 com 7... 31. Então entrei em
31 na Escola Alemã. Fiz os 8 anos... 39. Depois mais 4 de ginásio.
RS – {...} Esses 4 de ginásio... 39 mais 4, dá 43... A Sra. fez esse ginásio exatamente
durante a guerra, não teve interrupção nenhuma?
I – Não, fiz normalmente.
RS – Bem, então vamos continuar... como a Sra. ia para o colégio?
I – Ia a pé.
RS – Lembra se tinha mensalidade, se era pago?
I – Era pago.
RS – A Sra. se lembra se algum dia seu pai comentou sobre o pagamento, se era caro ou
barato, ou algo assim?
I – Não, isso ele nunca comentou. Porque outras alunas lá, vamos dizer que não pudessem
pagar, eles faziam abatimento né. Ou então se tivessem mais alunas, irmãs que
estudassem juntas... aí eles faziam desconto.
RS – Dos professores, a Sra. lembra de algum?
I – Tinha o prof. Scheil que era o diretor, da Escola Alemã. Tinha o prof. Stölzer... Stöl ...não
sei como é que é, esse dava aula de ... acho que era de Ciências...
RS – Como se escreve o nome dele?
I – S-T-O... Com o "o" com os pontinhos... Tinha o Schreiber... o Staude, a Rieckes, essa
era a professora de trabalhos, bordado, tricô... mais bordados. O Wolff era ...acho que de
Matemática se não me engano. O Schlechter, a Florentina Macedo de... de Português acho.
RS – Tem alguma história de professores pra contar, que ficou na memória?
I – Não, acho que não...
RS – Dos colegas, a Sra. lembra de alguém?
I – Lembro...
RS – Ao longo do tempo, a Sra. fez reuniões com esses colegas, encontrou alguém...
I – Não (...) saí do colégio.
RS – Eu participei de um jantar dos ex-alunos, nestes a Sra. nunca foi?
I – Ah, eu fui no primeiro. Há quantos anos... que eles fizeram... {...} Algumas colegas eu
ainda lembro o nome.
RS – Quem sabe a Sra. um dia coloque no papel os nomes delas pra me dar... seria
interessante.
I – Tem umas que já morreram...
RS – Na Escola Alemã, se lembra de colegas não alemães?
I – Só me lembro de uma, até era uma pretinha. O nome dela era Joana.
RS – E ela aprendeu a falar alemão?
I – Ela não ficou muito tempo.
RS – A Sra. se lembra se... quem sabe era adotiva, ou algo assim?
I – Não. Não. Não era adotiva.
RS – E no ginásio, daí tinha mais alunos não alemães?
I – A maior parte eram alemães. Porque todos quase, eles foram da escola e passaram
pro... pro Progresso. Muitos saíram, mas muitos ficaram pra fazer o ginásio.
RS - Quer dizer que, pelo que a Sra. me conta, é como se tivesse feito duas vezes o
ginásio?
I – Isso mesmo.
RS – Por que, não tinha validade o [ginásio] da Escola Alemã?
I – Os 4 anos que eu fiz extra, não.
RS – O governo não reconhecia?
I – Eu não sei porque naquele tempo o ginásio era 4 anos e tava acabado, né. E como eu já
tinha feito ... pra mim foi fácil de fazer, porque as matérias eram boas. A Escola Alemã foi
ótima pra mim. A base foi de lá. Muito boa.
RS – Como era a merenda?
I – A gente levava a merenda. Pão com manteiga, broa com banha, às vezes uma fruta...
fruta geralmente, não muito.
RS – E pra tomar?
I – Pra tomar, nada.
RS – Como era levado esse lanche, não tinha lancheira...
I – Tinha, uma lancheirinha sim [risos]
RS – Do edifício do colégio, o que a sra mais lembra?
I - ... Como é que vou dizer... tinha as escadas...que subiam pro primeiro andar, depois tinha
mais uma escada lá pra cima que morava o zelador...
RS – Nesse sótão, o que a Sra. lembra que tinha lá em cima?
I – Lá em cima não podíamos entrar. Lá era só do zelador e não era permitido subir.
RS – Havia alguma coisa que pudesse ser chamado de uniforme?
I – Nós não tínhamos uniforme.
RS – Nem nesse colégio, o do professor Moreira, nem um de cor cáqui?
I – Tinha a juventude hitlerista, né... eu não tive. [risos]
RS – Eu me refiro a um uniforme que era utilizado nos desfiles ...
I – Não, isso eu não me lembro.
RS – Quantas salas tinham no prédio?
I – Tinha 4 embaixo, 4 em cima...
RS – Tinha um sino para dar o sinal?
I – Era um sino.
RS – Tinha aula de Música?
I – Tinha, com o Staude e depois mais tarde com o prof. (...), era um italiano. Mas acho que
não era na Alemã, era no ginásio... Ele dava aula de canto, mostrava as notas...
RS – Tinha piano?
I – Tinha.
RS – Dentro do colégio?
I – Dentro do colégio.
RS – Em que local?
I – Acho que era numa sala...
RS – Então tinha uma sala só de música?
I - ... mas no primário acho que nós não tínhamos... com o Staude... eu não me lembro se
ele era professor de Música...
RS – Com violino?
I – Eu não me lembro.
RS – Nem que batia com o arco do violino?
I – Ah... ele batia com uma regüinha... na mão...
RS – Mas ele era professor de Música da Escola Alemã?
I – Eu não lembro de muuiiita coisa!
RS – E o recreio, como era?
I – A gente brincava! De pular corda, de conversar... era mais pular corda...
RS – Como eram as salas de aula, janelas, imagine-se lá dentro e me conte...
I - .... Bem, as carteiras eram comuns, as janelas tinham aqueles é... as cortinas, que mais...
até me lembro que eu quebrei uma vez uma vidraça...
RS – E daí?
I – Tinha de pagar! Porque tinha aqueles pauzinhos, pra cortina ficar... abaixada, e eu fui
fechar a janela e... [risos] não reparei no pauzinho... e quebrou o vidro, mas daí tinha de
pagar. Tinha que ir lá na diretoria, ... era muita disciplina, né... mas era bom...
RS – Meninos sentavam com meninas?
I – As meninas eram separadas, no primário. E no ginásio não.
RS – O recreio era separado na Escola Alemã?
I – Era separado.
RS – E no ginásio do Colégio Progresso?
I – Acho que também era separado.
RS – As portas eram de madeira?
I – De madeira.
RS – Tinha algum vidro, alguma janelinha na porta?
I – Não.
RS – Aula de Religião, a Sra. tinha?
I – Aula de Religião... não, acho que não.
RS – Aula aos sábados?
I – Tinha.
RS – No mesmo horário?
I – É.
RS – E quando a Sra. estava no ginásio do Progresso, tinha aula sábado?
I - ... Aí eu também não posso te dizer, mas eu acho que tinha.
RS – Hora de entrada e de saída...
I – A gente entrava às 8 horas e saía... acho que meio-dia.
RS – Quando a Sra. entrava, a Sra. fazia fila pra entrar?
I – A gente fazia fila.
RS – Alguém ficava olhando?
I – Ficava, os professores ficavam olhando.
RS – A Sra. se lembra de alguma comemoração que tivesse nesse pátio, na entrada...
I – Não.
RS – Tinha Educação Física?
I – Não.
RS – Nem no ginásio?
I – Acho que não. A gente... a gente fazia teatro.
RS – Quando?
I – No... no primário.
RS – Pra quem?
I – Pros pais né... os pais iam... cada fim de ano... né, eles faziam um teatro.
RS – Todas as séries?
I - Todas as séries.
RS – E onde ensaiava?
I – No Concórdia.
RS – Qual o horário das aulas de trabalhos manuais?
I – No mesmo horário da aula.
RS – Recapitulando: todas as aulas eram em alemão, menos o português e quando foi para
o ginásio do Progresso, tudo era em português e não tinha alemão, correto?
I - Sim.
RS - E tinha Inglês?
I – Tinha.
RS – Das provas, a Sra. se lembra de alguma coisa?
I – Eu acho que era uma por mês...
RS – Dos castigos, o que a Sra. se lembra?
I – Não me lembro de castigo [risos]
RS – Nem de um colega seu?
I – Não...
RS – Não tinha palmatória?
I – Palmatória tinha para os meninos. Eu sei que o Staude puxava aqui [mostrando as
têmporas] dos meninos, o cabelinho aqui. Mas só dos meninos.
RS – Se lembra de algum prêmio?
I – Não.
RS – Tinha alguma comemoração cívica?
I – Acho que antes de entrar pra escola a gente cantava, isso no ginásio...
RS – A sra se lembra de algo que queira contar e eu não tenha perguntado?
I – ...pera aí.... No ginásio a gente fazia comemoração do dia sete de Setembro, isso eu me
lembro agora. Mas eram comemorações pequenas.
RS – Tinha algum desfile na rua ?
I – Tinha. Pro ginásio nós desfilávamos na rua, era 4 de setembro, 7 de setembro, 15 de
novembro, qualquer feriadinho a gente tinha que desfilar.
RS – E pra esses desfiles, ia com que roupa?
I – Ia com saia azul-marinho e blusa branca. Com chuva ou sem chuva, a gente saía.
RS – E nos 8 anos que a Sra. esteve na Escola Alemã, não tinha desfile?
I – Não. Na rua não.
RS – A Sra. se lembra de ter ido fazer Educação Física, ou um passeio fora da escola?
I – Ah sim, fazia piquenique! Lá na... chácara do Schaffer, onde é o canal 4 agora, naquela
zona lá. Os pequenininhos iam num caminho mais curto e os maiores num... era toda a
escola daí. Daí os mais velhos iam por um caminho mais longo, andar.
RS – E vocês saíam a pé?
I – É, a pé.
RS – E o que levavam pra comer?
I – Merenda, né. Lá a gente ganhava laranja... Levava mais sanduíche, essas coisas.
RS – Iam professores, pais e alunos?
I – Não, os pais não iam, só os professores. E os alunos. Depois tinha também, que eles
chamavam em alemão Gustavhaus , que era lá no ... onde é a fábrica de bolachas, a
Lucinda, lá pra aquela zona (...). A gente ia lá, daí a gente plantava... era uma casa lá. A
gente plantava, depois eles davam almoço, ainda me lembro do almoço, era feijão, lingüiça,
[risos] ... muito bom!
RS – Por que, em que ocasião?
I – Não sei porque, acho que pra ensinar a plantar, ou... ter amor à terra, sei lá.
RS – E quem ia, só os alunos mais velhos?
I – É. Só os últimos anos. Mas isso era poucas vezes, eu acho que a gente só foi uma vez,
não sei...
RS – Então é isso, {...} mais alguma coisa?
I – Você falou de colegas, se eu me lembro de colegas... Lembro alguns. Tenho até um, que
pode te dar bastante dicas. {...}


OBS.: Para manter o anonimato da depoente, foi utilizado este símbolo {...} quando houve
necessidade de suprimir algumas informações que a identificassem, diferenciando dos parênteses
(...) utilizados quando a fala não foi compreendida, no momento da transcrição. Aqui, as chaves nos remetem a algumas informações de sua família nuclear.

Fonte: http://dspace.c3sl.ufpr.br:8080/dspace/bitstream/1884/8017/1/2002_postextual.pdf

[Escola Alemã de Curitiba]


- A propaganda da escola com a suástica e as cores dos Estados da Alemanha e Brasil


- Circular de Propaganda


- Laboratório de Física, Química e Ciências Naturais da Escola Alemã/Colégio Progresso.


- O sorveteiro Pascoal posando para a fotografia ao lado de um de seus carrinhos.


- Laboratório de Física, Química e Ciências Naturais da Escola Alemã/Colégio Progresso.


- Somente na última série, do curso matutino, os alunos eram separados por gênero.


- Fotografia aérea, realizada pelo 5º Regimento de Aviação, em 25 de jun. de 1935, mostrando a Praça Dezenove de Dezembro, e em primeiro plano, a Escola Alemã/Colégio Progresso.


- Entre luzes e sombras, o jardim do edifício-escola.


- Grupo de alunos em uma apresentação teatral, durante as festas de encerramento do ano letivo.


- A festa com os carrinhos e as bonecas enfeitadas. Década de 1930.


- O edifício escolar em 1908, em fotografia de Fleury e Kopf.


- Em 1937, a construção perde um pouco de sua visibilidade devido à vegetação.


- Uma das reuniões promovidas pelo CLFM, no segundo andar do edifício escolar. A platéia ouvia atentamente as palavras do orador e podia admirar os retratos dos heróis nacionais, em consonância com as palavras do quadro maior: "Nas manifestações da juventude deve pairar acima de tudo a imagem da Pátria." À frente, junto à mesa, um aluno segura a bandeira do CLFM. Fotografia de 1941.


- A Rua Barão do Cerro Azul, antes de ser alargada.


- Alunos da Escola Alemã/Colégio Progresso aguardando o momento do desfile no Dia da Proclamação da República, em 1938.

Fonte: http://dspace.c3sl.ufpr.br:8080/dspace/bitstream/1884/8017/1/2002_postextual.pdf
http://dspace.c3sl.ufpr.br:8080/dspace/bitstream/1884/8017/2/2002_corpo%20disserta%C3%A7%C3%A3o.pdf

[Escola Alemã de Curitiba]

A Escola Alemã de Curitiba (1930-1942)

Na Curitiba de 1930, filhos de alemães eram matriculados em escolas fundadas por pessoas pertencentes à comunidade alemã. A Escola Alemã era voltada aos evangélico-luteranos, e muitos dos pais dessas crianças já haviam estudado lá, e muitas vezes até seus avôs.

Estes imigrantes congregaram-se em torno de uma comunidade evangélica, em 1866, e três anos mais tarde fundaram a Deutsche Schule, com o objetivo de manter os costumes e preservar seu idioma.

Logo no início ocorreu uma cisão da comunidade, e a escola funcionou irregularmente. Porém, a partir de 1872, o número de matrículas aumenta muito, e a casa do pastor (local das aulas), já não acomodava mais. O ensino então foi transferido para as dependências da igreja, até que conseguisse dinheiro para construir a sede, o que só ocorreu em 1892. A partir daí, a Escola Alemã já não dependia administrativamente da igreja, apesar de os pastores serem professores e diretores e continuar dependendo financeiramente da comunidade evangélica.

Cria-se então a Sociedade Escolar (Verein Deutsche Schule). Esta sociedade passou a ser a mantenedora da Escola e reformularam o estatuto, deixando opcional a disciplina de Religião.

Segundo documentos da época, em 1914, a Escola Alemã mudou seu nome para Colégio Progresso, porém era muito conhecida como Deutsche Schule. A escola foi depredada devido à onda de nacionalismo lançada pela imprensa. Terminada a guerra, a comunidade germânica investiu para reparar os danos causados ao prédio, ao mobiliário e ao material escolar.

Depois de muito insistir para uma reabertura do colégio, em 1919, a solicitação foi aceita, com a Sociedade afirmando que se tratava de uma instituição brasileira criada por alemães, porém o número de matriculas diminuiu significativamente. A escola era considerava estrangeira por parte do governo, pelo fato de grande parte dos diretores serem estrangeiros.

Ainda em 1929, a Escola Alemã/Colégio Progresso comemorava seus 60 anos, e criou o curso ginasial, totalmente ministrado em português.

O Decreto Federal de 4 de maio de 1938, impedia que as aulas fossem ministradas em qualquer idioma que não o nacional, fazendo com que a Escola Alemã/Colégio Progresso sofra mudanças radicais. Dá pra observar a adaptação da Escola a respeito desse decreto quanto a alguns certificados de conclusão do curso matutino da época, que nos permite fazer uma comparação aos anos 1933, 1935, 1938, onde em 1933 o certificado era todo em alemão, em 1935 era bilíngüe, em português e alemão, e em 1938 era totalmente em português.

Quando a escola foi posta em uma situação de definir-se como brasileira ou como alemã, ela optou por continuar o ensino diferenciado, quando uma das exigências era que o ensino primário fosse todo ministrado em português. Para evitar maiores problemas, a Escola Alemã/Colégio Progresso seguiu a orientação dada pela Embaixada Alemã de conformar-se com as novas leis brasileiras.

Mas como poderia a Escola continuar com o ensino diferencia, em alemão, quando não era compatível com a lei? Cria-se uma lei federal de dezembro de 1938, que reforçava o Decreto de maio de 1938, referente ao ensino obrigatório em português, sendo impossível continuar o curso matutino do jeito que era oferecido.

Existe a hipótese de que em 1938 ele tenha sido extinto, fazendo com que a Escola Alemã/Colégio Progresso perdesse caráter de ‘escola estrangeira’.

A comunidade alemã investiu o quanto pode para que a escola continuasse a ofertar o ensino em alemão, preservando as tradições, costumes e idiomas, segundo eles ‘vale apena lutar por nossos colégios’.

Em Curitiba, a Escola Alemã/Colégio Progresso preservava o idioma, o nome, a disciplina e o espírito alemão, entrando nos prontuários do Departamento de Organização e Política Social (DOPS).

  • Estrutura


O edifício onde ficava a Escola Alemã/Colégio Progresso foi construído em 1892, uma construção simples, compacta, localizada ao lado da Praça Dezenove de Dezembro, em um terreno quadrado e com muros de alvenaria.

Foi planejado, projetado e construído por alemães. De arquitetura tudesca, tinha um objetivo: reforçar uma tradição secular que se preocupa com a formação dos jovens com os benefícios que a instituição pode dar.

As quatro faces do prédio tinham cada uma um significado, sendo o Saber, o Prestígio, a Tradição e a Cultura que esperava que fosse transmitida.

A localização da Escola Alemã/Colégio Progresso é intencional, pois é de nossa cultura ocidental, colocar junto às praças, Igrejas, Seminários, Conventos ou algo do governo representando um dos poderes (executivo, legislativo e judiciário). Levando em conta que a Escola foi construída junto a uma praça (dezenove de dezembro), sua localização era privilegiada.

O edifício, na década de 1930, contava com dois pavimentos e um sótão bem grande, que se observado às pressas, daria a falsa impressão de um terceiro andar.

  • Ensino

Na Escola Alemã/Colégio Progresso era ofertado um curso de 8 anos pela manhã, ministrado em língua alemã, e durante a tarde o espaço física era ocupado pelo ginásio, ministrado em língua portuguesa. E o curso do ginásio foi sendo implantado aos poucos a partir de 1929, mas seu funcionamento só foi autorizado em 1933.

No curso primário o alemão era a língua de comunicação diária e a de ensino também, e o idioma de português estava incluso como uma disciplina. Já no ginásio, falava-se e ensinava-se português, e o alemão não constava no currículo. Observando isso podemos concluir que de coisas em comum havia somente o espaço físico, gerando a imagem de “duas escolas”.

Os alunos deveriam comparecer a aula todos os dias, e pontualmente, caso contrário, os pais deveriam mandar um manuscrito explicando detalhadamente o motivo da falta, e declarando a doença que o fez faltar. Isso era exigência da escola, pois segundo ela, era um dever de todos, tanto pais como professores, cuidar da educação das crianças.

Por tal motivo de zelo pela educação, ao inicio do ano os pais eram convocados a irem até a escola. Isso servia para lembrá-los que a partir de fevereiro iniciava-se o ano letivo e os alunos deveriam retornar à escola.

A Escola Alemã/Colégio Progresso ofertava disciplinas como: Alemão, Álgebra, Aritmética, Português, Inglês, Francês, História Natural, Geografia, Geografia do Brasil, Física, Química, História Universal e do Brasil, Geometria, Caligrafia, Desenho, Ortografia, Canto, Trabalhos de agulha e Ginástica. A disciplina de Português de Alemão eram avaliadas quanto à ortografia, literatura e gramática. Já quanto à aprendizagem de francês e inglês, cobrava-se só a gramática e conversação.

O programa era tanto para garotas quanto para garotos, exceto trabalhos de agulha (para as meninas) e ginástica (para os meninos).

A Escola ainda realizava aulas de campo, levando seus alunos a fabricas e chácaras fazendo com que eles observassem os fenômenos da natureza e suas modificações.

No ano de 1942, houve o rompimento das relações diplomáticas entre Brasil e Alemanha, e no dia seguinte já via os resultados disso, as primeiras prisões contra alemães foram feitas.

Com isso, durante os anos de 1942 e 1943 a Escola Alemã/Colégio Progresso perde por completo suas características.

A escola estava em declínio, e documentos da época mostram a solução: A Faculdade de Medicina do Paraná havia estudado a possibilidade de tomar para si a Escola e dar continuidade ao curso secundário.

No final de dezembro de 1942, a Sociedade Colégio Progresso decidiu que o patrimônio seria passado à Faculdade de Medicina do Paraná, a qual garantiu a continuidade dos professores e funcionários do colégio.

Dava-se então o processo de transferência dos bens para a Faculdade de Medicina. Dentre os bens cedidos estava uma área adquirida em 3 da janeiro de 1927, onde mais tarde foi construído o Hospital de Clínicas.

O edifício sede da Barão do Serro Azul continuou abrigando apenas o Colégio Progresso, ou seja, o ensino em português, mas em 1944, estava em construção um novo prédio, para onde seria transferido, na rua Coronel Dulcídio.

As obras de alargamento da Barão do Serro Azul, fez com que opta-se pela demolição do prédio, como parte de um projeto comemorativo ao Centenário da Emancipação Política do Paraná, em 1953, inaugurando a nova Praça Dezenove de Dezembro.

  • Gêneros


A Escola Alemã era considerada mista, por aceitar tanto meninos, quanto meninas, porém seu espaço era dividido por gênero. As carteiras da escola eram de duplas e não era permitido que se sentassem meninos e meninas juntos. Não havia brincadeiras conjuntas na hora do intervalo, pois as garotas iam para um lado do prédio onde havia banquinhos de madeira onde elas sentavam-se e comiam as merendas trazidas de casa, e brincavam de roda, como “lenço-atrás”, “passa anel”, pular corda e “amarelinha”, ou apenas ficavam conversando. Já os meninos ficavam do outro lado, brincando “de mãe”, “polícia e ladrão”, “pular sela” ou faziam ginástica nas barras.

A divisão de gêneros era bem visível, seja nas filas, nos sanitários (lados opostos do prédio) ou em algumas aulas como: ginástica para meninos e trabalhos de agulha para meninas. E esses trabalhos feitos pelas garotas (geralmente bordados de ponto cruz, que eram várias amostras de alfabetos e numerais, servindo de modelo para o enxoval da futura dona de casa), ficavam expostos em uma vitrine de vidro com um papel indicando o nome e a turma da autora.

Na escola era permitida a presença de garotos e garotas na mesma sala até a penúltima série. Já na ultima série do curso matutino os alunos eram separados.


Fonte: http://dspace.c3sl.ufpr.br:8080/dspace/bitstream/1884/8017/2/2002_corpo%20disserta%C3%A7%C3%A3o.pdf